Jovens sul-coreanos chamam seu país de “inferno” e procuram caminhos para sair de lá

Não se engane com as luzes chamativas da cidade, as atraentes músicas do K-pop, a tecnologia que está em toda parte. A Coreia do Sul, nas mentes de muitos jovens daquela nação, é viver num inferno — e eles não aguentam mais isso.

De acordo com um número crescente de cidadãos entre seus 20-30 anos, a Coreia do Sul é um lugar daqueles que nascem com uma colher de ouro em suas bocas, entram nas melhores universidades e garantem um trabalho muito fácil e agradável que paga bem, enquanto aqueles que nascem numa condição financeira inferior, trabalham longas horas em empresas que pagam pouco, sem benefícios.

Essa Coreia tem até um nome especial: “O inferno Joseon”. Isso remete à dinastia Joseon cerca de 5 longos séculos nos quais as hierarquias confucionistas se enraizavam na Coreia e quando um sistema feudal determinava quem ficava no comando e quem não.
“É difícil imaginar eu casando e tendo filhos.” Diz Hwang Min Joo, uma roteirista de programas de televisão com 26 anos.
A Hwang, muitas vezes, vai ao trabalho com sua mala numa manhã de segunda-feira e não sai de lá até quinta-feira à noite.

Ela come no escritório dela, toma um banho no escritório dela, dorme nas beliches no escritório dela. “Se eu sair às 21:00, seria um dia curto”, afirma.

Os pagamentos são feitos de maneira irregular — ou nada é pago às vezes, se o programa é cancelado — e porque ela não tem um contrato, a Hwang se pergunta quando dormirá bem todas as noites, se ela ainda terá um trabalho na outra manhã. Ela pode ter essa vida profissional somente vivendo em casa com seus pais — quando ela vai para casa, na verdade. 
“Se você tiver bastante dinheiro, a Coreia do Sul é um ótimo lugar para viver. Mas se você não tiver… “
Kim Hyeon Min (22 anos), trabalha para um advogado sob contrato. Depois de se graduar, ele trabalhou como estagiário na Assembleia Nacional. “Se o congressista não gostar de você, ele ou ela pode mandar você facilmente embora. No melhor dos casos, a estabilidade no emprego é temporária, Ainda continuo otimista. Tenho vontade de adquirir mais experiência na Assembleia Nacional e me candidatar algum dia.

Hwang Min Joo (26 anos), é uma roteirista de TV. “Quando vou dormir, nem sei se terei meu emprego amanhã. Posso ser despedida com um sms simples do meu produtor. Se meu programa vai ao ar, não sou paga. Moro com meus pais e é assim que consigo sobreviver.” 

Essas declarações são comuns entre a geração da Hwang. Os pais dela viveram num espantoso crescimento econômico na Coreia do Sul durante a década de 1960-1970. Depois, em 1980, presenciaram a democracia ser introduzida.

Mas aqueles vieram à terra após esse ‘boom’ econômico, veem somente o lado negativo: as empresas megalíticas que proporcionam uma posição e pagam bem seus empregados, como todos os outros fazem para ter sucesso em algum empreendimento, apesar da falta de organização.

Desde a crise financeira de 2008, muitas pessoas perderam seus empregos, casas e principalmente, suas esperanças. Mas para os sul-coreanos, tais perdas são sentidas de modo mais crítico, por causa do tremendo contraste com os dias agitados da industrialização.

A economia está caótica – o crescimento desacelerou para apenas 2,6 por cento no ano passado – e foi acompanhada por um aumento de empregos “irregulares” que não oferecem nenhuma segurança e nada de benefícios, uma tendência sentida profundamente por aqueles que tentam crescer em seu trabalho.

Quase dois terços dos jovens que obtiveram empregos no ano passado tornaram-se trabalhadores em situação irregular, segundo dados do Instituto do Trabalho na Coreia.

Mesmo quem trabalha em grandes conglomerados estão sentindo o aperto, com a Samsung, Hyundai e Doosan demitindo trabalhadores.

Em meio a essa escuridão, cada vez mais jovens coreanos estão tomando as redes sociais para reclamar sobre a situação em que vivem.

Há um grupo no Facebook que possui mais de 5.000 membros, sobre um site dedicado a espalhar mensagens e imagens que ilustram o horrível estado de vida na Coreia do Sul. As longas horas de trabalho, a alta taxa de suicídio e até mesmo o alto preço dos alimentos.

Numerosos sites oferecem dicas de como escapar. Outros oferecem conselhos sobre programas de treinamento para soldadores aspirantes, uma habilidade que possui muita demanda nos Estados Unidos e no Canadá.

Isso tudo não é apenas um fenômeno da internet. O romancista coreano Jang Kang-myung escreveu o livro “Porque eu odeio a Coreia do Sul” – uma obra de ficção sobre uma jovem que emigrou para a Austrália. Como resultado, o livro ficou no topo dos mais vendidos no ano passado.

Quando um artigo intitulado “A declaração do estado arruinado” foi publicado no jornal Kyunghyang Shinmun, rapidamente se tornou viral no país.

Lee Ga-hyeon, uma jovem de 22 anos que tirou um tempo de seus estudos para trabalhar em uma cooperativa de trabalhadores em tempo parcial, disse:
Se minha vida continuar dessa maneira, eu realmente não vejo muito futuro. Na Coreia do Sul, “tempo parcial” significa trabalhar horas em tempo integram e com salário mínimo.
Enquanto ela estava estudando, Lee trabalhou no McDonalds e, em seguida, em uma cadeia de padaria, muitas vezes trabalhando seis horas por dia, cinco dias por semana, além de estudar o tempo inteiro. O aluguel do seu quarto, daqueles bem pequenos que são chamados de “tamanho caixa de sapato”, custava quase metade de seus ganhos mensais, cerca de $450 dólares.
Eu quero me tornar uma advogada trabalhista certificada para que eu possa ajudar os outros em circunstâncias semelhantes. – Disse Lee.
Song, de 34 anos de idade, cuja esposa teve que parar de trabalhar depois de ganhar uma filha no ano passado, mudou para um trabalho de menor prestígio, porque ele estava trabalhando regularmente das 8am até as 1am do outro dia.
Meu chefe sempre disse: “A empresa vem em primeiro lugar, sua família vem em segundo lugar. – Disse Song, que pediu para retirar o seu nome completo com medo de se encontrar em problemas em seu trabalho. 
O mais frustrante de tudo é que muitos jovens dizem que seus pais, que trabalharam duro e por longas horas para construir o “sonho coreano” acham que a resposta para os problemas é apenas “colocar mais esforço”.

Meus pais pensam que eu não tento o suficiente – Disse Yeo Jung-hoon, 31 anos, que costumava trabalhar para uma ONG ambiental, mas que agora dirige um grupo no Facebook chamado de “União dos trabalhadores não qualificados.”
Uma vez, depois de uma reunião, meu chefe disse na frente de todo mundo, “eu não acho que você seja adequado para este trabalho.” Eu me senti humilhado, mas eu não podia sair porque eu precisava do dinheiro. É um inferno sem uma saída. 
Fonte: (1)
Tradução: Lázaro Daniel.
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