Entrevista com o autor de “Because I Hate Korea” (Porque eu odeio a Coreia)


Esta postagem é uma extensão da postagem publicada aqui na Inspire (o link estará logo abaixo), sobre os coreanos que odeiam seu país e querem sair de lá de qualquer maneira. Um autor escreveu o livro “Because I Hate Korea” e fez muito sucesso em 2015 na Coreia, principalmente pelos jovens. A postagem de hoje é uma tradução da entrevista que ele fez para um site estrangeiro em outubro do ano passado. Por favor, deixem seus comentários sobre o que acharam da entrevista ao final. Boa leitura.


Jang Kang-myung, 40 anos e autor do livro intitulado “Because I Hate Korea” (Porque eu odeio a Coreia).

O romance, que gira em torno de uma jovem mulher que emigra para a Austrália por seu descontentamento com sua terra natal (Coreia do Sul), foi publicado em maio de 2015, porém continuou a dominar as listas de mais vendidos em livrarias locais.

O sucesso é devido, principalmente, graças aos jovens coreanos, que começaram a se referir ao livro sempre que eles falam sobre o “Inferno Joseon“, um neologismo popular que surgiu na internet.

“Inferno Joseon” se refere a Coreia pelo seu antigo apelido, Joseon, a dinastia que tinha poder sobre a península coreana entre 1392 e 1910, e é indicativo do ódio e desespero que sentem pela Coreia. A expressão traz uma realidade em que os fracos são negligenciados e se pensa que se você não consegue algo é porque você não “se esforçou o suficiente”.

Na verdade, não foi esse o livro que ajudou o autor a fazer o seu nome entre os romancistas. Ele já havia recebido uma série de prêmios literários e permanece a anos no centro do círculo literário do país.

O assunto tratado no livro lida principalmente com as questões que a geração atual de jovens lida na Coreia, como a imigração, violência escolar e até suicídio.

O autor sentou para uma entrevista em 2015 para falar mais sobre seus pensamentos sobre a frustração e angústia sentida pelos jovens da Coreia. A seguir, alguns trechos da entrevista.

Pergunta: Por que você acha que o seu romance “Because I Hate Korea” (Porque eu Odeio a Coreia) ganhou tanta atenção?

Resposta: Talvez seja porque a maioria das pessoas estão estressadas pela sociedade coreana. Todos estavam esperando alguém para criticá-la sem rodeios (no caso, criticar a sociedade)… Há essa atmosfera em que nos sentimos como se realmente não reconhecessemos o que nós não gostamos em nosso país. Então eu acho que o livro deu algum tipo de catarse ou satisfação.

Pergunta: Recentemente, neologismos como “Inferno Joseon”, “Jiok Bulbando (península de fogo do inferno) e Heulksujeo (que se traduz em “colher de barro”, uma referência a ter nascido em uma família pobre) surgiram e se espalharam entre jovens coreanos.

Resposta: Eu acho que é um reflexo dos jovens coreanos pensando que seu país não é uma terra de oportunidades, mas sim uma sociedade de frustração. Quando a geração mais velha dis para eles “se esforçarem mais” ou “fazer mais um esforço” eles simplesmente não recorrem a eles mais.

Em vez disso, eles só pensam, “não vai funcionar de qualquer maneira” e não escutam. Eles foram desencorajados pela realidade e insultados por parte da sociedade, então eles parecem querer inverter esse insulto sobre a sociedade. Eu vejo isso dessa forma.

Pergunta: O que você acha que seja o maior problema que enfrenta a sociedade coreana?

Resposta: Eu acho que o lento crescimento econômico não é realmente um problema da Coreia por si só. Eu não acho que o fenômeno dos jovens coreanos que dividem classes em “colheres de ouro” e “colheres de barro” seja tão grave em comparação com outros países.

O problema com a sociedade coreana é que as pessoas não tratam as pessoas em posições mais baixas também.

O sentimento de humilhação que essas pessoas sofrem é imensa. Eles não morrem de fome se não se formar em uma universidade de prestígio ou trabalhar em um grande conglomerado, mas eles ainda trabalham para alcançar esse objetivo. Isso é porque a sociedade humilha as pessoas que não conseguem atingir esse ideal. É demais, esse é o problema com esta sociedade.

Pergunta: Existe uma solução?

Resposta: Acredito que, se a nossa sociedade adotar uma cultura de respeito mútuo, podemos resolver problemas mesmo sem crescimento econômico. Isso pode livrar uma grande parcela de estresse na sociedade coreana.

As pessoas são insultadas por serem muito jovens ou serem mulheres, ou são tratados como um servo só porque eles trabalham no setor de serviços. A língua coreana tem o que chamamos de uma forma honorífica da linguagem.

Normalmente, os jovens usam quando se fala para aqueles que são mais velhos do que eles. Mas eu acho que nós podemos começar este respeito mútuo através de uma forma honorífica de linguagem um com o outro, independentemente da idade. Esse é uma das minhas crenças.

Pergunta: Por que você toca em questões enfrentadas pelos jovens coreanos neste livro?

Resposta: Não foi intencionalmente. Eu apenas escrevi sobre minhas preocupações. Eu qero viver uma vida honesta e significativa, mas sempre me encontro sem saber o que fazer.

Eu acho que os jovens coreanos em seus vinte e trinta anos estão em uma situação semelhante. Uma revista literária me chamou de “porta-voz da juventude”, e eu estava muito envergonhado. Claro, não posso negar que eu estou interessado nessa geração comparada com as outras.

Eles (os jovens) são da geração que veio depois da industrialização e democratização, e a geração sem quaisquer responsabilidade social.

No entanto, eu não quero falar para uma geração específica. Vou apenas continuar a escrever sobre minhas preocupações, e um dia essas preocupações vão falar por aqueles que estarão em seus quarenta e cinquenta anos.

Pergunta: Você costumava ser um jornalista no Dong-A Ilbo, mas se tornou um escritor em tempo integral em 2013.

Resposta: Foi difícil escrever romances enquanto trabalhava como jornalista. Eu estava pensando sobre um freelancer quando escrevi “Bleach” e “Lumiere People”. Mas eu também achei que seria difícil ganhar a vida como um escritor em tempo integral.

Mas como eu tenho mais responsabilidades no trabalho e… fiquei mais velho, eu percebi que eu não poderia fazer malabarismos com as duas coisas ao mesmo tempo.

Eu discuti com minha mulher a minha decisão de me demitir do trabalho. Eu prometi a ela que iria tentar ganhar quase tanto como um escritor, que era cerca de metade do salário anual que ganhava como jornalista.

Se eu não pudesse manter a promessa, eu lhe disse que iria parar de trabalhar como escritor e encontrar outro emprego.
Para cumprir essa promessa, eu estive escrevendo como um louco. Eu consegui atingir essa meta este ano, mas eu não sei o que vai acontecer no próximo ano.

A cada ano, novos escritores aparecem e recebem muita atenção, então eu realmente não sei o que vai acontecer. É por isso que vou continuar escrevendo.

Pergunta: Qual é o próximo passo?

Resposta: Meu próximo trabalho será nas Coreias do norte e do sul. Essas questões têm me interessado desde que eu era um jornalista. Serão cerca de 2.000 páginas.

Alguns leitores disseram que a profundidade de “Porque eu Odeio a Coreia” foi muito rasa, e eu concordo. Foi difícil escrever uma história em profundidade em apenas 500 páginas. Desta vez, quero agarrar os leitores com uma história mais profunda.

Além disso, eu quero escrever uma não-ficção, algo como o jornalismo, algum dia. Eu fui um repórter político de um noticiário local durante muito tempo e tenho um monte de opiniões sobre os acontecimentos atuais.

Fonte: (1)
Entrevista original por: Cho Han-Dae.
Tradução: Lázaro Daniel.
Entrevista com o autor de “Because I Hate Korea” (Porque eu odeio a Coreia) Entrevista com o autor de “Because I Hate Korea” (Porque eu odeio a Coreia) Reviewed by Adriana on 12:32:00 Rating: 5

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